domingo, 4 de abril de 2010
Antídoto
Como escapar desse formigamento da alma, dessa inquietude voraz; excesso de sentidos.
Onde estão os anestésicos, os escudos; os meus pares onde estão?
Esse eterno vagar, sem repouso;
somente um breve pausar ou nem isso.
Náusea palpável, extensa, abrangente.
O gauche eterno, nessa constante angústia da existência que não satisfaz, achando-se e perdendo-se no caminho;
- que caminho -
EMBRIAGAI-VOS
É necessário estar sempre bêbedo.
Tudo se reduz a isso; eis o único problema.
Para não sentirdes o horrível fardo do Tempo,
que vos abate e vos faz pender para a terra,
é preciso que vos embriagueis sem cessar.
Mas de quê? De vinho, de poesia ou de virtude, a vossa escolha.
Contanto que vos embriagueis.
E, se algumas vezes, nos degraus de um palácio,
na verde relva de um fosso, na desolada solidão do vosso quarto, despertardes, com a embriaguez já atenuada ou desaparecida,
perguntai ao vento, à onda, à estrela, ao pássaro, ao relógio,
a tudo o que foge, a tudo o que geme, a tudo o que rola,
a tudo o que canta, a tudo o que fala,
perguntai-lhes que horas são;
e o vento, e a vaga, e a estrela, e o pássaro, e o relógio,
hão de vos responder:
É hora de se embriagar!
Para não serdes os martirizados escravos do Tempo, embriagai-vos;
embriagai-vos sem tréguas!
De vinho, de poesia ou de virtude, a vossa escolha.
CHARLES BAUDELAIRE, O spleen de Paris, XXXIII.
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